Wednesday, 20 June 2012

A Menina que Ama livros (A#01)

     Olá, e Seja bem vindo.

     Eu sou Sol Cajueiro e este é o meu Blug.

          # A Escola dos Mil Herdeiros

     O mundo de Tanahta é um mundo singular. Guerras. Devastação. Tudo o que um mundo antigo passou após ir de uma era mítica de antiguidade para uma era espacial, no mínimo tempo possível de cerca de dois meses, isso torna os Herdeiros as pessoas mais fortes do Império. Há mais. Há mundos que sofreram terrores tão próximos, e as raças ediche se unem a outras raças para confrontar inimigos desconhecidos, terrores noturnos e tecnologias estranhas, que fariam o cérebro de um cientista ferver.

     Isso é, agora, tempo atual, Anno 5.204 tka, ediche.

     Melhor ler que eu explicar em minúcias. Os detalhes seriam longos demais, e acredito que do fundo da alma deste que lhes fala, a única coisa que faz o meu sangue correr é o amor. Sim, o amor. Não seria nada sem ele, e aliás, o que uma pessoa seria sem amor e carinho?

          # Idrias Ink - A Menina que Ama livros

     A Região das Ruínas é tão rara quanto especial, e bela.

     Aí, uma pequena garota cresceu e viveu, dividindo espaço com pessoas que ela nunca conversou, mas viu, e teve muito mais do que acreditou ter, até que sua vida se modificou para sempre. Seu pai, bem, ele morreu. Não é possível dizer isso de outra forma, mas daí em diante a vida dela é muito longa e beira uma equação infinita, que apenas Artífices entenderiam, mas não explicariam. A pequena Idrias nasceu em 5.191 tka, Data de Akkoya, da Aliança das Três Raças, então ela tem agora dez anos.

     Idrias nasceu pequena.
     Bem nos primeiros anos, ela aprendeu a ler sozinha nos livros do pai. Ele ficou apaixonado com essa pequena, que lhe surpreendia todos os dias. Aprendeu a escrever aos cinco anos, e lia muito, tanto que seu pai teve de criar uma regra.

     "Você só pode começar a ler um livro novo, se coletar um artefato", disse ele.

     Fácil, ela nasceu na Região das Ruínas, de Tanahta.

     E foi assim que Idrias saiu de casa pela primeira vez. Primeiro, só as ruas laterais, a praça que ficava além das casas era muito longe, e coletar não era uma coisa tão fácil quanto ela imaginava. Seu pai avaliava os artefatos, antes de lhe dizer que pode ler.
     Um dia, acordou decidida.
     Decidiu ir além das casas que ficavam nas montanhas, e ver o que havia depois. Trilhas. Viu um homem muito sujo e pobre e teve medo dele, mas o homem só sorriu e a deixou passar.
     No final do dia, descobriu a água.
     Era um bosque, que ficava algum tempo depois da ponte que terminava no ar, e levava de lugar nenhum a coisa alguma, mas era um artefato que não podia erguer, ou levar.
     A sede a fez beber a água, e era pura.
     Não imaginava o medo que iria sentir quando em pouco tempo, de repente, anoiteceu. Havia fica perdida. Não sabia o que fazer. Sentiu medo, frio e fome. A proximidade do artefato, bem, vamos explicar. Era uma pedra que parecia um jarro estranho, abaulado, e um pouco acima dele as gotas de água iam se formando, nascia ali água pura que você podia mesmo beber, sem se preocupar.

     A pequena decidiu beber durante a noite. Assim, a fome que sentia sumiu! Não sabia se era a água, mas era o que parecia.

     Havia esquilos noturnos voando naquele bosque.

     Idrias voltou para casa quando amanheceu, e seu pai não deu bronca. Ele ficou muito sério, e pediu que lhe contasse tudo, que não esquecesse nada. Ela achou que nunca mais ia poder sair de casa, e esperou pelo castigo. Castigo que nunca aconteceu, e seu pai lhe contou a verdade: "Minha filha, eu vou te contar a verdade",...
     Assa Ink fez uma pausa, a pequenina engoliu em seco, mas calma. Seu pai lhe olhou nos olhos, e ela decidiu continuar a olhar nos olhos dele.
     -- Eu sou um bruxo -- disse Assa Ink a sua filha, e ela ficou sem palavras -- E você sem dúvida é uma bruxa. Uma que as pessoas vão ter medo, ou admiração e amor.
     -- O que? -- ela perguntou por perguntar.
     -- Isso mesmo, Idrias. Eu sou um bruxo e você é uma bruxa -- disse seu pai, em tom de revelação, mas muito calmo -- Só uma bruxa encontraria um lugar de poder, lá onde é a água, só porque decidiu ir mais longe para conhecer o que encontraria, a Magia te guiou.
     -- E,... ehr,... Como assim, pai?
     -- Melhor se eu te mostrar --  e ele tirou um pedaço de pau do casaco, solenemente apontando para a mesa e, ao dizer: "Ergo!", a mesa começou a flutuar em pleno ar.
     Seu pai apontou a varinha para a janela, e a janela se fechou.
     Depois, ele abriu a janela e pousou a mesa com muito cuidado, no mesmo lugar, apontando o pedaço de pau, e olhou para sua filha esperando pelas palavras dela.
     -- Ah,... --  disse ela -- é igual nos livros? Magia?
     -- Exatamente -- resumiu ele -- E a partir de hoje eu vou lhe mostrar e ensinar tudo o que você quer aprender, se você aceitar ser estudante, e quando você for mais velha você vai entender tudo, eu prometo.
     Os anos foram se passando, e nada.
     Idrias nunca manifestou o mínimo de magia. Nada. Nem mesmo as coisas que seu pai falava que eram as mais fáceis e básicas de todas. Mas seu pai lhe ensinou muitas coisas, desde os cinco ou seis anos de idade, quando ela desvendou lá onde é a água e voltou sozinha. Acampamento. A necessidade da água. Que você sobrevive sem comida, mas não sem água. A observar as estrelas, saber o nome das estrelas que dão direção, a saber as constelações. O Esquilo, A Ave dos Ovos de Ouro, O Daktyl. O que são artefatos, o que são quinquilharias. E ela leu muitos livros, romances, histórias e lendas de Tanahta, seu mundo. Histórias e lendas de Herdeiros. Ela queria ser uma Herdeira, mas só se fosse bruxa ela se tornaria uma. Aos poucos, Idrias andou toda a região em que morava, mas seu pai a proibiu de ir nas vilas que tivessem símbolos de metal nas entradas, e de falar com estranhos, e é estranho que estranhos estranhos não paravam pra falar com ela, e sim, eles a viam, a cumprimentavam a distância, e a deixavam em paz.

     E então, do nada, dormindo, seu pai morreu.

     Seria impossível descrever o seu sofrimento, a pequena Idrias entrou em depressão; e sua mãe, mesmo que também estivesse sofrendo, não conseguia lhe dar lugar, ou uma razão de ser.

     Sua mãe lhe contou, então, que também é uma bruxa. "Muito menos poderosa do que o seu pai era, minha filha", disse ela, "mas não menos herdeira". Inicialmente, Idrias não entendeu o que sua mãe quis dizer com isso.
     Não até mais tarde, quando a educação faz todo o sentido que a gente não percebia que fazia, e as palavras dos nossos mestres de repente tem um significado mais profundo. Descobrimos que paramos de sofrer por coisas pequenas e temos de enfrentar um mundo perigoso, mais perigoso que o mundo das montanhas, dos andarilhos, e daqueles que, bem, no fundo, não entram em nossa vida por acaso.
     Seis meses depois, Idrias desvendou.

     O mistério mais profundo e estranho que seu pai, em várias explicações, havia tentado lhe explicar; em um dia que decidiu tentar uma coisa nova, fazer o que havia de mais difícil.
     Escolheu um Ritual pra fazer; o mais complexo, e seguiu todas as explicações do livro. O difícil Círculo que tinha de desenhar, certinho. Estava decidida. A oferenda, ouro em pó, que ela raspou de um dos livros de romance mais antigos que tinha, os incensos de Flor da Deusa, tudo nos mínimos detalhes, e sua mãe estava fora, no mercado fazendo compras, enquanto isso.
     Assim, Idrias entrou em transe.
     Existem coisas que a gente não tem como evitar pensar, quando se está sofrendo; algumas dessas coisas encontram o perdão em si mesmas.
     O Ritual dizia que você podia fazer uma pergunta.
     E foi o que ela fez.

     -- Meu pai ainda está aqui comigo? -- sem palavras mágicas, só a pergunta.
             -- "Não" -- foi a resposta.

     Aquela não era a resposta que ela queria, então o transe acabou imediatamente. Ficou ali, parada. Sabia que havia conseguido fazer o Ritual, mas,... seu pai não estava com ela pra ver. Não se movou, até sua mãe chegar e ver que ela estava sentada ali, no meio de um Ritual, vendo o olhar perdido da filha.

     -- Tulja? -- disse sua mãe -- Você,.....
     -- Eu fiz um Ritual -- os olhos de sua mãe brilharam, mas o olhar de tristeza da pequenina era assustador. Sua mãe olhou rapidamente para os símbolos e entendeu.
     -- O Ritual de Augúrio,... O que foi? -- sua mãe se sentou, ao lado.
     -- Meu pai não está mais comigo. Eu queria tanto que ele visse, eu consegui, eu fiz um Ritual, mas eu perguntei,...
     -- O que você perguntou? -- a voz de sua mãe era suave.
     -- Perguntei se papai ainda estava aqui comigo, e a resposta foi "Não" -- revela a pequena.
     -- Tulja,... -- sua mãe passou a mão em seus cabelos -- Olha, esse é o Ritual de Augúrio, e você, bem, olhe só. Você conseguiu. Agora você vai pra Escola. A mesma escola que eu e seu pai estudamos, e foi onde nos conhecemos, A Escola dos Mil Herdeiros. Você entende agora, filha? Nem eu nem seu pai poderíamos desvendar a Magia por você. Mas magia é uma coisa perigosa, também. Você fez um augúrio, mas não era a resposta que você queria, mas você conseguiu. Era a verdade. E a Verdade às vezes é terrível, mas eu tenho certeza de que o seu pai está em um lugar melhor.
     -- O que acontece quando uma pessoa morre? -- foi uma pergunta espontânea. Os olhos da pequena estavam cheios de água, ali, dependurando-se entre as pálpebras.
     -- Isso ninguém sabe -- foi a resposta -- Existe um caminho. Depois de morrer, devemos encontrar uma nova missão. Se encontrarmos a missão, nós aceitamos fazer parte do mundo novamente e, então, voltamos, nascemos de novo. Mas, se uma pessoa teve uma vida intensa demais, e mais ainda, se ela foi ruim, ela se torna uma assombração, ou outras coisas, avantesma, aparição, fantasma. E existem também os espíritos que ficam porque o mundo precisa deles, e eles passam a fazer parte da Natureza, das suas vozes, como guardiões, mas nem eles sabem o que pode acontecer exatamente a uma pessoa quando ela morre, mas ainda bem que seu pai não ficou. Eu iria odiar ter de pensar que nunca mais, em nenhuma vida, iria vê-lo de novo.
     -- Eu quero ir deitar -- a pequena disse, quase desmaiando.

     Sua mãe lhe pegou e levou para a cama, onde ela deitou e ficou.

             O Caso da Cabana -- Mês Primeiro, 8.204, Tanahta.

     A pequena Idrias ficou ali deitada uma semana inteira. Nem percebera que o tempo passava, se esqueceu dos livros, e só comeu porque sua mãe lhe levou comida na cama todos os dias.
     Sua mãe não disse nada, não a censurou, parecia entender a sua dor. Devia entender. Ela é uma bruxa, e mais, mãe.
     Ao final de uma semana sua mãe entrou no quarto. Trazia um pequeno vaso com uma florzinha, deixou sobre a janela para pegar sol, e saiu do quarto, parecendo bastante feliz.
     A curiosidade foi maior que o sofrimento, e Idrias se levantou. Foi ver a florzinha. Parecia um caktus, e tinha uma florzinha amarela bem pequenina. Ela cutucou o caktus, com muito cuidado. E de repente começou a brotar uma flor, no lado esquerdo, uma florzinha linda, vermelha, de um tom bem vivo.

     "O que significa isso?", ela não evitou pensar.

     -- Mãaae! -- chamou ela. Sua mãe havia acabado de por a mesa para o almoço. Suco cítrico, ora e patatas, carne desfiada, e o cheiro estava incrível, mas Idrias tinha os olhos da dúvida.
     -- Sim, minha filha -- ela se sentou numa cadeira.
     -- Mãe, o que é aquela flor? Ela nasceu do nada na hora que eu tava olhando.
     -- Aquela,... aquela é uma flor mágica, minha filha. A cor da flor, ela nasce na hora, é a cor do que você está sentindo naquele momento, esse caktus é muito raro.
     -- O que quer dizer a cor vermelha?
     -- Raiva, ou talvez, dúvida, ou determinação. Seu avô me deu uma antes de morrer, quando eu era pequena, fui aceita na escola e foi então que conheci o seu pai.
     -- E o que significam as outras cores?
     -- Amarela é amor ou alegria, vermelho é raiva ou determinação, verde ou cinza podem ser esperança, tons azuis depende do dia e da lua, e muito raro é a cor branca, que quer dizer pureza.
     -- Qual foi a cor que nasceu quando você conheceu papai?
     -- Amarela - sua mãe viu sua expressão de "Sim, tudo bem, agora eu entendi", e sorriu.
     -- Tá -- ela respirou fundo -- Eu vou sair.
     -- Vamos comer primeiro -- convidou a sua mãe, feliz.
     -- Tá, eu quero suco -- disse, cheia de energia.

     Depois do almoço, Idrias arrumou a mochila de acampamento, que estava encostada ao lado do armário de sibra, uma madeira bem clarinha e levemente cheirosa, e se lembrou de tudo o que seu pai ensinou. Também colocou um cantil na cintura, e se despediu de sua mãe. Verificou se havia corda, e também comida -- ração de viagem, na verdade.

     Andou para o oeste, em meio a trilhas nas montanhas, e evitou as vilas. Passou pela meia ponte, que fica suspensa por não-se-sabe-o-que e olhou as bruxinhas pousadas na pedra. Verificou os cogumelos brancos, um tipo muito comum nessa região, e tinha um cogumelo rei ao lado da pedra pão, com uma coroa que chama a atenção dos insetos para beber as deliciosos pingos da água doce da coroa.
     Andou no leito do Rio Seco, e foi para o Bosque da Pedra.
     O bosque tem esse nome porque tem a tal pedra, que sempre encontra estudiosos ali pesquisando, pois ela é oca por dentro e brota água da pedra, mas ninguém nunca explicou porque brota água dela. A água é pura. Ela bebeu dessa água no dia que saiu pela primeira vez. A água sacia a sede, a fome e o sono. "Deve ser mágica", essa foi a conclusão dessa vez. Ela sabe que tem de acampar num lugar com água e há um pouco de distância, por causa dos animais que também precisam de água e vão nesses lugares para beber.
     Encheu o seu cantil, e montou acampamento. Idrias olha para cima e vê um dáctilo no céu, e sente um arrepio só de pensar em sair do chão, então desvia os olhos rapidamente.
     Ergue a barraca há dois metros do chão, amarrada entre duas árvores, e levou só alguns instantes para usar a pederneira para acender o fogo.

     Haviam gravetos por todo o chão. Ia anoitecer logo. Consultou o céu e olhou para o por-do-sol, dourado, pra saber onde era o oeste. O sol estava entre três montanhas, e anoitece sem halo ao redor do segundo sol distante, o que quer dizer que não vai fazer frio essa noite, e isso é bom.
     Ficou ali, olhando os esquilos noturnos voarem de árvore em árvore.
     Sabe que eles vão avisar se qualquer problema estiver por perto, e então, decidiu pegar um livro para ler, pois já fazia uma semana que não lia nada.

     Idrias leu mais uma vez o conto chamado O Poço, uma história de uma bruxa linda, que morava nas névoas ao lado de uma Zona Morta, e que sofria com a misteriosa falta de água do poço quando era lua cheia. Um dia, um velho chegou acompanhado de um jovem, ambos vindo do Árido Sem Fim. Ela disse logo que não tinha água. O jovem disse que sabia o que fazer, mas que ele só ia fazer isso porque havia se apaixonado por ela. O velho, que tinha de manter o respirador porque era muito velho, disse que faria o casamento. Ela duvidou, "Nem magia faz essa água brotar", mas o jovem tirou o respirador e ele era muito bonito. Ele foi até o poço, e retirou um giz-de-chão da bolsa lateral com o qual fez uma série de símbolos e então, de repente, havia água no poço. Ela ficou intrigada: "Qual o segredo da sua magia?", e ele então respondeu: "Case-se comigo, e nossa Magia será uma", e eles se casaram naquela mesma noite.

     Quando de repente, Idrias acorda, e é agora meio da noite.

     Ela dormiu. Ela ergue os olhos, tensa, sabe que não deve dormir assim, no chão. Por sorte nada aconteceu. Ela guarda o livro e atiça a fogueira, e então apura os ouvidos para a noite negra, para perceber que foram sininhos que a fizeram acordar, eram sinos de urso -- você deve balançar sininhos para os ursos, porque um urso não te ataca se ele souber que você está chegando, "Mas são vários sininhos, então sem dúvida não é um urso", pensa ela, pois há cuidadores que põe sininhos no pescoço dos ursos -- sem dúvida, não era o caso. Olha para a barraca, ali no meio das duas árvores, e vê um estranho se aproximando.
     Parece um fantasma, era um peregrino, um viajante das ruínas.
     -- Hhóo -- saúda ele, mas a menina não diz nada. O velho, muito velho, e com uma barba que lhe vai até a cintura, para e fica olhando.
     A menina está ao alcance da fogueira, então o velho pode vê-la e ela sabe disso. Depois de alguns momentos tensos, o velho decide dar a volta e ir andando meio longe dela, vai até a Pedra e bebe até saciar a sua sede e fome.
     Olha para a menina, de lá, enche seus cantis e vai embora.
     Idrias fica ali alguns momentos e se decide. Não quer dar a chance ao azar. Seu pai disse para não falar com estranhos, e tomar cuidado com as vilas. Ela não vai ficar ali. Se esse velho passou por ali, isso pode querer dizer que outros viajantes estão passando por ali também.

     Em pouco tempo, ela desmontou o acampamento, e encheu de terra a fogueira. Decide ir para o outro lado, contrário ao que o velho ia.
     Após uma pequena caminhada, a pequena viu uma vila e desviou para a montanha, onde passou por uma casa que tinha uma placa "Cão dócil. Dono nervoso", e riu. O cachorro latiu, e os esquilos voaram nas árvores. Ela murmurou para o cachorro "Shhh,...", e seguiu viagem.
     Ao passar pela segunda montanha, foi até onde nunca havia ido.

     De repente, estava pisando sobre chão duro. Era o que parecia ser uma pedreira. Tinha uma placa velha, que não se podia mais ler. Que pena, ler a placa iria ajudar muito,...
     Idrias avança -- ela usa uma lanterna autocarregável, que você só precisa bombear e recarrega a bateria, e então, ela encontrou um barracão.

     Abandonado.

     -- Tem alguém aí? -- pergunta sua voz muito jovem. Depois de não encontrar eco, ela abre sem esforço uma porta sem tranca, e ve um barracão vazio, onde decide passar o resto da noite.
     Ela se lembra que há dois meses chegou aos dois dígitos, e isso foi o seu primeiro aniversário sem seu pai,... que hora pra lembrar de seu pai,... ela suspira, e sente o cheiro de poeira.

     A cabana, de um cômodo só, tem um banheiro que foi cimentado, e o chão fica acima do solo algumas medidas pequenas. Isso é bom, não vai ter ratos nem grassos. O chão range, quando ela anda. Nada demais. Isso não vai chamar a atenção de ninguém passando por ali.

     As janelas estão pregadas, por ripas e muitos pregos. De repente, a porta se fecha e ela se assusta.

     -- Quem está aí? -- sua voz é firme, ignorando a sua idade. Assim, o vento começa a soprar entre as gretas, fazendo "Uuuhh-uuuuuuuuh,...", e ela sente que tem um problema, agora.
     -- Quem está aí? Apareça -- ordena ela.
      Nenhuma resposta, só o vento como se tentasse falar coisas sobre a noite e as sombras.
     Afasta o medo bobo das sombras, sua preocupação são pessoas. Se alguém estiver ali, ela sem dúvida vai ter problemas sérios. Mas então, ela se lembra que é uma bruxa, e ergue as sobrancelhas.
     -- Eu sei que você está aí. Apareça -- e nada. Tentando se concentrar naquela sensação estranha do Ritual, o único que ela conhece, ela concentra todas as suas forças e sente um arrepio.
     -- Meu nome é Idrias Tuule Ink, e eu ordeno que apareça -- e sente uma energia em volta de si mesma, lhe envolvendo de forma macia, estranha, quente. A energia sai dela, e aos poucos envolve todo o barracão.

     Assim, ela ve, no canto ao lado do banheiro cimentado, é cinzento, um borrão muito definido, uma imagem como seria a imagem do avatar de um computador, em preto e branco quase, com os olhos cheios de medo, não, de raiva, bem, fica mudando de raiva para medo, e o vento faz "Uuuuuuuuuuuuhh" quando ele abre a boca. Ela olha bem nos olhos do homem, sem certeza alguma do que devia fazer.

     -- Quem é você?
     -- Você,... (diz uma voz distante, como alguém gritando pelas montanhas afora), você pode me ver?..
     -- Me responda. Quem é você? -- ela demanda.
     -- NINGUÉM,... ninguém pode me ver,... como é que você me vê?
     -- Eu sou uma bruxa -- ela não tinha certeza disso, mas achou que ele poderia ter medo de enfrentar ela, pro caso de ela saber alguma magia.

     O-que-quer-que-seja esse homem, ele ficou calado. Depois de alguns segundos, ela ligou a lanterna e foi estudar o lugar. Havia um monte de lixo no canto. Vários pequenos pedacinhos de madeira, velha. Havia uns papéis, com o símbolo da polícia, um pedaço de corda.
     -- Como é que você pode me ver? -- sussurrava em berros muito distantes o homem -- Isso não pode acontecer, isso nunca aconteceu,...
     A menina olhou para cima, um pouco assustada.
     O teto estava balançando com os berros distantes do o-que-quer-que-seja esse homem, e começou a ranger, ela ficou com dó dele. Parou. Ela parou, olhando pra ele, enquanto pensa. O homem está vestido com roupas pobres, era cinzento, quase prateado, tinha um vergão sombrio no pescoço, e então, viu a corda. Pensando muito rápido, a pequena olhou para o lixo e remexeu ele, procurando.
     Sim, sabia! Era a mesma corda.

     -- Você está preso aqui, não está? -- perguntou ela.
     -- SAAAIA! Largue isso! Vamos, por favor, largue isso, ou eu...
     -- É isso aqui,... (ela pergunta, em dúvida), não é? A corda, ela tá te mantendo preso. Esse lugar tá abandonado, há quanto tempo você tá aqui?
     -- NÃAAO! -- a voz dele é como um grito de uma montanha para a outra -- Eu vou derrubar esse lugaaaar,...

     Idrias teve então uma ideia, meio estranha. Sabia que o homem só tinha aparecido porque ela concentrou aquela energia, e então, ela segurou a corda, e concentrou toda a sua vontade nela.
     As frestas voltaram a fazer vento "U-Uuuuuuuuuuhhhhh",...
     De repente, ela sentiu estar num tipo de transe, mesmo sem estar fazendo um Ritual, e viu que tudo estava ficando com aquela cor cinza, prateada, uma mistura de luzes e sombras por todo o lugar. Voltou toda a sua atenção para a corda, e decidiu destruí-la.

     Assim, sentiu que a corda estava se desfazendo. A Corda, na verdade um laço que ela não conseguia desfazer, foi virando pó e em alguns momentos era um montinho de poeira no chão.

     -- O QUÊE VOC,... espera,... -- o homem percebe a corda em seu pescoço.

     A estranha corda estava desaparecendo.
     Idrias olha no montinho de lixo, e tem também uma outra corda, que ela pega e faz a mesma coisa que ela fez com a outra corda, e olha para o homem cinzento. Ele ve que o laço que amarra seus pulsos desaparece, e então, a pequena nunca imaginou isso, ele sorri.
     Sorri, um sorriso de espanto e admiração. Aos poucos uma luz, vinda de ninguém sabe onde, envolve ele, e ele começa a desaparecer.
     -- Não! -- ela grita -- Não vai embora! Não! Eu quero conversar com você.
     Não adiantou, e o homem foi envolto numa luz que não vinha de lugar algum, e em alguns momentos ele havia desaparecido, e o sorriso dele era um sorriso de felicidade.
     Do nada, toda a luz, o transe, e o uivo do vento desapareceram. Idrias ouviu um passarinho cantando, anunciando o amanhecer que chega, mais uma vez, para comprovar que a natureza é a mais poderosa das verdades.

          # Os Visitantes

     A pequena Idrias viu a luz desse amanhecer entrando pela fresta da porta, e decidiu sair e voltar para casa, e se sentia, meio que, não conseguiria explicar -- triste e feliz, ao mesmo tempo.
     Ela fez o caminho de volta, e chegou em casa para o almoço.
     Ao entrar em casa, ela chama.

     -- Mãaaae! -- e sua mãe vem da cozinha, com a tijela de ora saindo cheiro de comida quentinha. Idrias não queria comer, afinal, queria era contar o que aconteceu.
     Sua mãe ouviu tudo com muita calma.

     -- Você entende o que aconteceu, Tuule?
     -- Não, mãe -- ela tinha um olhar de não faço a menor ideia -- Eu queria conversar com ele, eu só tentei ajudar, e depois ele sumiu. Ah, sim! Na hora que eu saí da cabana, vi que uma vaca branca cheirava o chão do lugar, e daí, ela foi e entrou na pedreira, ah, e um esquilinho também.
     -- Você viu um espírito, minha filha -- disse sua mãe, e ela se lembrou de seu pai -- Você ajudou ele a se libertar, não sei como você conseguiu, mas foi exatamente isso que você fez.
     -- Mas ele foi embora? Porquê?
     -- Ele foi para onde os espíritos livres vão, ninguém sabe com toda certeza onde é, mas existem lugares,... você vai estudar todos na Escola, onde você vai aprender tudo sobre essas coisas.
     Idrias fica de boca aberta, e não consegue evitar de pensar. Ela conseguiria falar com o seu pai, um dia? Mas então, o cansaço aconteceu.
     -- Você acha que eles vão me deixar ir pra escola, mãe?
     -- Tenho a certeza mais absoluta disso, Tuule -- ela sorria um sorriso tranquilo.
     -- Eu quero ir deitar,...
     -- Não vai comer nada? Tem ora. E você estava acampando, e não...
     -- Tá, ração não é igual comida. Eu quero, mas to cansada -- disse a pequena.
     -- Vai indo se deitar que eu levo pra você comer. Vai.
     -- Hmmmh,...

     Idrias Tuule Ink se levantou, e foi tonta para o quarto, se arrumou e deitou. Mas se levantou, e foi ver a florzinha. Nasceu de repente, uma flor bem pequenininha, amarela. Feliz, deitou-se. Comeu uma tijela pequena de ora, carne de panela, mitras ao molho branco, e patatas, e então adormeceu profundamente.
     De repente, depois de dormir muito, a campainha toca sem parar. "Eu não vou atender. Estou dormindo", pensou. A campainha toca pela décima vez, e então ela ouve um chamado, uma voz de homem.
     -- Senhorita Idrias Tuule Ink! Eu tenho uma entrega para você! -- disse um homem.
     Ela se levantou imediatamente.
     -- Livros! -- diz sem pensar, e sai correndo.
     Desce correndo a escada de madeira, onde na lateral há os guarda-volumes, tudo cheio de livros, agendas e cadernos de anotações, e brinquedos que seu pai inventava. Na hora que passou pela sala, não conseguiu evitar de olhar para a mesa. Havia um bilhete.
     -- Tô iiindo! -- grita para a porta, anciosa.

     "Tuule querida, fui ao mercado da vila. Me espere para o almoço", era o bilhete.

     Correu e abriu a porta, mas então, parou desconfiada.

     -- Você é Tuule? -- pergunta um homem usando calças comuns, jaqueta e capa por cima. "Ninguém me chama de Tuule",... pensou. Ela ficou um segundo avaliando eles, havia um outro montado em um tuleque, segurando o outro animal.
     -- Sim, sou eu. Quem é você?
     -- Eu sou um Oficial de Educação, e tenho uma surpresa para você. Acho isso tão impressionante. Não é, Hal? -- o outro homem sorri -- Mas eu acho que você vai ter de abrir para ler.
     Entregou a ela um envelope pardo, lacrado com cêra vermelha. Ela parou, mas abriu desconfiada, saiu uma energia transparente do lacre, e pousou em sua mão um pingente dourado -- sim, era de ouro. Um círculo com uma gota no meio,... mas a gota não era presa ao círculo por nada, parecia uma coisa realmente mágica. Havia um bilhete pequeno, num outro envelopezinho branco, dentro do envelope maior.

     "Senhorita Idrias Tuule Ink. Você foi aceita na importante e antiga escola -- A Escola dos Mil Herdeiros, para receber, se assim aceitar as Leis de nossa sociedade, educação de especiais. A Escola é privada. Você irá estudar Magia, Manifestação e Poder, além de matérias essenciais para sua condição, e deve se apresentar dia 21 do Mês Primeiro.
     Segue uma lista de materiais e livros que você deve levar, e todo o resto é fornecido pela Escola, em razão das suas aptidões especiais".

     (Havia uma assinatura no final).

     -- Livros! -- e pegou a segunda folha -- Como minha mãe sabia? -- ela estava assombrada -- Onde está a minha mãe?
     -- Hehe,... -- riu o homem -- Sua mãe não está em casa? Não se preocupe, ela vai voltar pra comemorar com você. As aulas começam daqui a uma semana. Você vai fazer a Travessia das Montanhas, que só se abrem para os verdadeiros herdeiros.

     O homem, obviamente um Herdeiro, de pele clara e cabelos negros, tocou o peito na altura do coração, depois ergueu o chapéu marrom, dizendo "Parabéns", e se virou, o outro homem ergueu o chapéu preto, e eles falaram com os tuleques deles "Vamos", segurando as rédeas, para ir embora.
     Idrias ficou ali intrigada, com aquele olhar perdido. Voltou para dentro de casa, ainda inquieta, e se sentou na primeira cadeira para tentar entender o que era aquele pingente.

     "Como a minha mãe sabia? Como, se a carta só chegou hoje?", duvidou com ela mesma. Não conseguiu fazer nada até sua mãe voltar. "Bom, tenho meu Pingente. Estou na Escola. Eu sou estudante", aceita ela.

     -- Mãe! -- ela ficou em pé, na hora que a porta se abriu.
     -- Oi, querida -- e olhou para o envelope pardo sem nada escrito e o lacre aberto.
     -- Mãe, como você sabia se o Pingente só chegou hoje? -- Sua mãe deixa as sacolas costumeiras no chão e sorri abrindo os braços.
     -- Magia, querida -- abraça sua pequena -- Magia.

          (Fim do Prelúdio)

     O que espera pela Menina que Ama livros, você vai ler ao longo de várias histórias. Bom, está claro que ela sabe mais do que acha que sabe, mas vamos aos poucos porque as histórias tem muitos detalhes e todos são necessários.

     Espero que esteja gostando das histórias do Blug, e,...
          Fique Ligado.

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